Golpe com IA no DF: 139 registros em sete meses e como se proteger
Polícia Civil contabiliza uso de deepfake em estelionato, extorsão e ameaça entre janeiro e julho
A Polícia Civil do Distrito Federal registrou 139 ocorrências criminais com uso de inteligência artificial entre janeiro e julho deste ano. O dado é da corporação e foi divulgado nesta terça-feira (18). Na prática, o morador de Brasília passou a receber pedido de dinheiro feito com o rosto e a voz de alguém que ele conhece.
A técnica é a deepfake, que troca rosto e sintetiza voz a partir de vídeos e áudios reais da pessoa. O material bruto costuma vir de perfis públicos em redes sociais, de vídeos de festa e de stories antigos.
Como o golpe chega
O padrão mais comum no DF é o pedido de transferência por Pix. A vítima recebe uma chamada de vídeo curta, de poucos segundos, em que vê o rosto de um parente ou de um colega de trabalho pedindo ajuda urgente. A imagem trava, a ligação cai e a conversa continua por mensagem, onde os dados bancários são enviados.
Há também a versão comercial. Vídeos com o rosto de artistas e apresentadores anunciam remédio, investimento e sorteio. A Delegacia de Repressão aos Crimes Cibernéticos investiga esquemas do tipo que venderam medicamentos sem qualquer registro sanitário.
Nos registros da PCDF, o estelionato consumado aparece 59 vezes, com outras 23 tentativas. A lista traz ainda pornografia com imagem forjada, ameaça, extorsão, injúria e casos enquadrados na Lei Maria da Penha.
O que checar antes de pagar
- Encerre a chamada e ligue para a pessoa em um número que você já tem salvo. Nunca no número que apareceu agora.
- Combine com a família uma palavra de segurança, usada só em pedido de dinheiro por telefone.
- Observe a boca: atraso entre o som e o movimento labial é o sinal mais frequente.
- Repare na piscada e nas bordas do cabelo e das orelhas, que costumam tremer no vídeo gerado.
- Desconfie de pressa. Urgência é a ferramenta principal desse golpe.
Se você já caiu
O primeiro passo é acionar o banco e pedir o Mecanismo Especial de Devolução, que permite a recuperação de valores transferidos por Pix em casos de fraude. O pedido precisa ser feito rápido, porque a chance de recuperação cai quando o dinheiro é repassado a outras contas.
Em seguida, preserve as provas. Salve o vídeo, o número que ligou, o perfil que enviou o link e o comprovante da transferência. O registro pode ser feito na delegacia da circunscrição ou pela Delegacia Eletrônica da PCDF, no site da corporação, quando o caso é patrimonial.
Imagem íntima forjada e conteúdo envolvendo criança ou adolescente exigem atendimento presencial em delegacia especializada. Denúncias sobre menores também podem ser feitas pelo Disque 100.
Idoso é alvo preferencial
O levantamento da PCDF contabiliza sete crimes contra idosos e duas tentativas dentro do recorte de sete meses. É o grupo mais visado porque tende a atender a chamada, a confiar na imagem que vê na tela e a ter dificuldade de identificar os sinais técnicos da montagem.
A orientação prática para famílias é combinar antecipadamente que nenhum pedido de dinheiro será feito por videochamada. Quem cuida de pessoa idosa pode também ativar limite baixo de Pix noturno no aplicativo do banco, o que reduz a perda em caso de golpe.
A segurança na cidade também vem sendo alvo de operações da PCDF contra crimes patrimoniais, como a ação que prendeu sete pessoas na QNN 3, em Ceilândia.
A corporação não divulgou comparativo com o mesmo período de 2025 nem a taxa de solução desses casos. Os 139 registros cobrem apenas o que virou boletim de ocorrência.