Cidades

Juizas afegas que fugiram do Taliba recomecam a vida em Brasilia

Sete magistradas chegaram ao DF em grupo de 26 pessoas; idioma e revalidacao de diploma sao as barreiras que restam

Sete juízas afegãs que fugiram do Afeganistão após a volta do Talibã ao poder, em 2021, reconstroem a vida no Distrito Federal. Elas chegaram ao Brasil em um grupo de 26 pessoas, entre magistradas e familiares, em acolhimento articulado pela Associação dos Magistrados Brasileiros (AMB).

O grupo faz parte de um fluxo maior. Segundo o Instituto SHE (Sustainable Humanitarian Empowerment), sediado em Brasília, cerca de 100 refugiados afegãos já passaram pela capital, número que a entidade trata como estimativa porque parte das famílias seguiu para outras regiões do país depois da chegada.

Para quem exercia a magistratura, o recomeço esbarra em duas barreiras que se somam. A primeira é o idioma: o português tem pouca relação com o dari e o pashto, línguas faladas no Afeganistão, o que alonga o tempo até a autonomia mínima para trabalhar e resolver a vida cotidiana. A segunda é a revalidação de diploma, exigência para atuar em qualquer profissão regulamentada no Brasil e processo que depende de análise por universidade pública.

Do inglês em Cabul à tradução em Brasília

O percurso de Farzana Ahmadi, 36 anos, ilustra o tempo que a travessia consome. Professora de inglês e tradutora em Cabul, com sete anos de sala de aula, ela aprendeu português depois de chegar ao Distrito Federal e hoje trabalha com tradução e apoio à comunicação de migrantes.

É esse tipo de trajetória que o Instituto SHE tenta encurtar. A organização presta serviços de integração social e econômica e criou a CCAMI, câmara de conciliação, arbitragem e mediação intercultural, para resolver conflitos e aproximar os refugiados do sistema de justiça brasileiro. A estrutura atende quem chega sem entender como funcionam contratos de aluguel, registros civis e relações de trabalho no país.

Por que Brasília concentra o grupo

A capital reúne as instituições que operaram o acolhimento. O primeiro grupo foi alojado na Escola Superior de Defesa, órgão vinculado ao Ministério da Defesa, e recebeu aulas de português com professores da Universidade de Brasília três vezes por semana, além de atendimento em saúde, educação e assistência social enquanto aguardava a regularização dos vistos.

O acolhimento das magistradas foi tratado como caso específico porque a atividade que exerciam era o motivo direto da ameaça relatada por elas. Foi essa condição que levou associações de magistrados de vários países, entre elas a AMB, a organizar a retirada dessas profissionais do Afeganistão e a articular destinos de acolhida.

Quase cinco anos depois da chegada da primeira leva, a pauta que resta é a mesma de qualquer refugiado qualificado no Brasil: transformar formação já obtida em ocupação formal. Enquanto a revalidação não sai, a atuação se dá em áreas correlatas, como tradução, mediação e ensino de idiomas.

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