Dezessete anos depois das velas na praça, Brasília vê Arruda barrado de novo
A cidade que fez vigília em 2009 acompanhou nesta quinta a Justiça Eleitoral recusar o registro do ex-governador — que segue fazendo campanha até o TSE decidir
Dezembro de 2009. Sobre a grama de uma praça do Plano, moradores desenharam com velas acesas duas palavras dirigidas ao então governador do Distrito Federal. A imagem correu o país. Dezessete anos depois, nesta quinta-feira (3), foi num plenário de tribunal, sem público e sem vela nenhuma, que a cidade ouviu o desfecho mais recente da mesma história.
O Tribunal Regional Eleitoral do Distrito Federal recusou o registro de José Roberto Arruda (PSD) como candidato ao Buriti. O placar da sessão foi de quatro votos a zero.
A cidade já viveu isso antes
Brasília tem memória curta para muita coisa e longuíssima para esta. Foi aqui que um governador em exercício virou o primeiro do país a ser preso preventivamente, em fevereiro de 2010. Foi aqui que o vocabulário de uma cidade inteira incorporou, sem precisar de explicação, o nome de uma operação policial e a imagem de cédulas de dinheiro sendo guardadas às pressas.
Desde então vieram condenações, recursos, absolvições parciais, novos recursos. Arruda saiu da cena, voltou, tentou disputar eleições, foi barrado, tentou de novo. Filiou-se ao PSD em dezembro de 2025 e apostou numa mudança recente na legislação para reabrir a porta. Nesta quinta, a porta voltou a fechar — ainda que sem tranca definitiva.
O que exatamente aconteceu no tribunal
O relator, desembargador Guilherme Pupe da Nóbrega, entendeu que as ações movidas contra o ex-governador ao longo dos últimos doze anos não formam um episódio jurídico único. Como não formam, não podem ser somadas a partir da mais antiga delas, de 2014, que é o que a defesa pedia para poder afirmar que o prazo tinha vencido.
Contando de 2018, ou da decisão mais nova, de junho deste ano, a conta não fecha a tempo da eleição de outubro. Votaram no mesmo sentido os desembargadores Leonor Aguena, Asiel Henrique de Sousa e André Puppin. Néviton Guedes não participou, por já ter atuado em processos do caso na Justiça Federal.
Na rua, nada muda esta semana
Quem esperava ver as bandeiras sumirem das esquinas vai se decepcionar. A própria decisão garante ao ex-governador continuar em campanha, com direito a material impresso, carreata e horário eleitoral na TV e no rádio, enquanto o recurso não for julgado. O nome segue na urna nessa situação provisória.
Arruda tratou o resultado como injustiça e prometeu seguir. Em conversa com a imprensa antes da sessão, resumiu assim:
“Hoje mesmo vamos entrar com recursos no TSE. A campanha não para. Eu tenho couro grosso, tenho amor por Brasília e não vou aceitar ser derrotado no tapetão. Eu desejo que a população de Brasília tenha o direito de escolher o seu governador pelo voto.”
A data que a cidade precisa anotar
O calendário é apertado. O Tribunal Superior Eleitoral tem até 14 de setembro para decidir, e essa é também a última data em que um partido pode trocar o cabeça de uma chapa majoritária, faltando 20 dias para a votação. Entre 11 e 18 de setembro, o Supremo Tribunal Federal deve concluir o julgamento sobre a validade da lei de 2025 em que a defesa se apoia. São três semanas que valem por um ano.
Até lá, a cidade faz o que sempre faz: acompanha, comenta na fila da padaria, divide opinião em grupo de família. Só que agora com pressa — a eleição é no primeiro domingo de outubro. Leia também: As convenções que montaram o tabuleiro do DF em agosto.
Foto de capa: manifestação contra a permanência de José Roberto Arruda no governo do DF. Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil (arquivo, dezembro de 2009) — CC BY 3.0 BR.