Concreto cobre as pedras portuguesas da Hélio Prates, em Ceilândia
Obra de R$ 2 milhões começou em 1º de junho e está 99% concluída, segundo a Novacap; CAU-DF critica a impermeabilização do canteiro central
O mosaico de pedras portuguesas que desenhava o canteiro central da Avenida Hélio Prates, em Ceilândia, foi coberto por concreto em uma obra de recuperação que começou em 1º de junho e chegou a 99% de execução. A informação é da Novacap, que respondeu ao Metrópoles nesta sexta-feira (19).
Segundo a companhia, o serviço custou R$ 2 milhões e foi executado a pedido da Administração Regional de Ceilândia. O 1% restante deve ser concluído até o fim do mês.
O que os moradores dizem
As pedras estavam no canteiro havia mais de uma década e viraram referência visual da avenida, que corta Ceilândia e segue até Taguatinga. Ao Metrópoles, o morador Lucas Ladeira, que vive há 32 anos na cidade, resumiu a percepção de quem passa por ali todos os dias: "Era bonito. Era uma imagem de Ceilândia que fazia parte do imaginário coletivo".
Coordenador do projeto Jovem de Expressão, Antônio de Pádua classificou a troca como "um apagamento histórico". Não há registro de tombamento ou de reconhecimento formal do mosaico como patrimônio, o que significa que a substituição não dependeu de autorização de órgão de preservação.
A crítica técnica do CAU-DF
O Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Distrito Federal (CAU-DF) questionou a solução adotada. Coordenador adjunto da Comissão de Política Urbana e Ambiental do conselho, o arquiteto Antonio Menezes Junior afirmou ao Metrópoles que "a solução adotada é muito prejudicial" e que "não há justificativa para impermeabilizar o canteiro central da forma que foi feita".
O argumento é de drenagem. Ceilândia tem terreno em declive, e uma superfície impermeável no canteiro central aumenta o volume de água que corre pelo asfalto durante as chuvas em vez de infiltrar no solo. Para o conselho, a obra "vai na contramão" das recomendações de urbanismo adotadas hoje. Há ainda o custo adiante: reparo de concreto exige novo contrato de serviço e, dependendo do tipo de dano, sai mais caro que a manutenção da pedra portuguesa.
O que ainda não foi respondido
A Administração Regional de Ceilândia, que pediu a obra, não se manifestou às tentativas de contato feitas pelo Metrópoles. Não há informação pública sobre o projeto que embasou a troca do revestimento nem sobre estudo de drenagem para o trecho.
A Hélio Prates é uma das vias de maior movimento da região e está no traçado previsto para a terceira etapa do BRT, que ocupa justamente o canteiro central entre Ceilândia e Taguatinga.
- Onde: canteiro central da Avenida Hélio Prates, em Ceilândia
- O que mudou: mosaico de pedras portuguesas substituído por concreto
- Quando: obra iniciada em 1º de junho, com 99% de execução
- Quanto: R$ 2 milhões, segundo a Novacap
- Quem pediu: Administração Regional de Ceilândia
A cidade tem discutido com frequência o que guarda da própria história. Neste sábado (19), a Casa do Cantador recebe a segunda edição do Sarau-Vá, em um dos equipamentos culturais mais antigos da região.