Maria Elisa Costa, defensora do Plano Piloto, morre aos 91 anos
Filha de Lucio Costa chegou a Brasília em 1959, presidiu o Iphan e passou seis décadas no debate sobre a preservação da capital
Morreu nesta terça-feira (25), aos 91 anos, a arquiteta e urbanista Maria Elisa Costa, filha de Lucio Costa e uma das vozes mais constantes na defesa da preservação do Plano Piloto. A causa da morte não foi divulgada. A governadora Celina Leão decretou três dias de luto oficial no Distrito Federal.
Ela chegou a Brasília em 1959, um ano depois de se formar em arquitetura pela Faculdade Nacional de Arquitetura da Universidade do Brasil, atual UFRJ, e entrou para a divisão de urbanismo da Novacap, onde ficou até 1964. Era a companhia que faltava ao Relatório do Plano Piloto: quem tinha assinado o projeto era o pai, e quem passou a vida discutindo o que a cidade podia e não podia fazer com ele foi a filha.
Do canteiro de obras ao Iphan
Depois da passagem pela Novacap, Maria Elisa trabalhou no escritório do arquiteto Bernard-Henri Zehrfuss, em Paris, entre 1964 e 1968, e foi sócia de empresas de planejamento urbano no Rio de Janeiro de 1968 a 1982. O retorno ao debate de Brasília veio na década seguinte, já pelo lado institucional.
Foi assessora do secretário de Viação e Obras do GDF entre 1986 e 1987 e integrou o Conselho de Arquitetura, Urbanismo e Meio Ambiente no mesmo período. Participou da Comissão Especial de Brasília no Iphan de 1996 a 1998, do Conselho Técnico de Preservação de Brasília de 1999 a 2001, e presidiu o Iphan entre 2003 e 2004. Também dirigiu a Associação Casa de Lucio Costa, responsável pelo acervo do pai.
Essa sequência de cargos explica por que o nome dela aparecia sempre que uma proposta mexia com as escalas do Plano Piloto. A cidade é patrimônio da humanidade desde 1987, e a preservação, no caso de Brasília, não protege prédio isolado: protege a relação entre os vazios, os gabaritos e o traçado. Discutir novo edifício no Eixo Monumental, adensamento de superquadra ou ocupação de área verde era, invariavelmente, discutir com ela.
O que fica para a cidade
"Maria Elisa Costa é um ícone e um símbolo de Brasília. Deixa um enorme legado para a preservação", afirmou a governadora Celina Leão ao anunciar o luto oficial de três dias.
Informações sobre o velório não haviam sido divulgadas até a publicação desta reportagem.
Para quem circula pela cidade sem pensar nisso, o legado dela é menos visível que uma obra e mais duradouro: é o motivo pelo qual o horizonte visto da Esplanada continua sendo o mesmo horizonte de 1960. A discussão sobre até onde vai a proteção e onde começa o direito de a cidade mudar segue aberta, e agora sem a interlocutora que a atravessou por seis décadas.
Quem quiser reencontrar a Brasília que ela defendeu tem os equipamentos abertos ao público no Eixo Monumental como ponto de partida, entre eles a plataforma da Rodoviária do Plano Piloto, que continua sendo o cruzamento mais movimentado do projeto original.